Uma aurora doida
A aurora chegou tão bonita vestida de
rosa, passou pela vidraça do quarto do hotel, de
que não corro nunca as cortinas, passou através
de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas
não me acordou a alma, que ficou dorme-simdorme-não, muito boba e semi-iluminada. Minha
alma cheia de caracóis e formiguinhas.
Depois ela, a aurora, foi esvoaçar sobre
os telhados e era como se aquilo estivesse
acontecendo no passado e todo mundo fosse
vivo. Meus olhos ficaram namorando aquela
aurora doida que esvoaçava e se adelgaçava e me
alienava e deixava nascer de seu ventre róseo os
primeiros passarinhos matutinos.
Como são vivos e novos os passarinhos
enxotados pela aurora! Como a alma de um
homem é boba e vadia! Como a doçura da
preguiça de uma criatura que amanhece é
infinita! Como às vezes, tantas vezes, ao surgir o
dia, o homem se descobre miraculosamente
perdoado de todos os crimes, crimes não, das
coisas feias que cometeu e das coisas belas que
deixou de cometer. Quem nos perdoa, não
sabemos. Deve ser assim: o sofrimento se junta,
vai juntando dentro da gente, arranhando,
lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta
que nos pune. Então ficamos perdoados e felizes.
Puros, recomeçamos de alma nova, passada a
limpo como um exercício de escola.
Mas a aurora começou a sentir que ia
morrer. Ficou pálida. Ficou mais pálida ainda.
Um ventinho frio levantava as grinaldas da
janela. As árvores começaram por milagre a dar
folhas, flores e frutos. Os pássaros se coloriram.
Ônibus fumacentos avançaram sobre a cidade.
Homens gritavam vendendo coisas. A aurora foi
ficando palidíssima e morreu, morreu diante dos
meus olhos, no instante em que duas estrelinhas
tímidas eram riscadas do espetáculo noturno.
Amanhecia depressa demais.
Tinha chegado a hora do enterro da
aurora. O coche, puxado por andorinhas de
sobrecasaca, foi levado com solenidade para
longe, para muito além de um monte azulmarinho e desapareceu.
Fiquei só outra vez, mas não dei a
mínima. Por um momento quis que a aurora
voltasse. Depois resolvi ser novamente um
homem, com duas pernas, dois braços, dez dedos
práticos, uma cabeça mais ou menos, mas capaz
de decidir onde devo pôr os meus pés. Não é
sadio ficar chorando a perda de uma aurora,
mesmo uma aurora tão especial como aquela,
capaz de perdoar-nos de todos os pecados.
Ergui-me da cama resoluto como um rei
e fui lavar esta minha cara de português
subjetivo. Escovei os dentes com um máximo de
confiança. Abençoado sejas, irmão dentifrício,
que me refrescas a boca habituada a venenos. Em
jejum de alimento e ideias, acendi meu primeiro
cigarro. Que me dá tosse. Abençoada sejas, irmã
fumaça, que sobes para o céu.
Deitei-me na cama de novo, enquanto os
cavalos dos poemas antigos traziam o astro-rei
em atropelada brilhante. Vi-os, fortes e louros,
irromper pelo céu onde tinha morrido de morte
linda a aurora. Abençoado seja o Sol. Abençoado
seja o dia. Abençoada seja a preguiça.
Abençoados sejam os pássaros. Abençoadas
sejam as criaturas. E abençoada seja a aurora.
Que me perdoa de meus pecados.
CAMPOS, P. M. Uma aurora doida. In: Primeiro Plano ‒ Diário Carioca,
1959. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12988/uma-aurora-doida>.
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