Há falta de concordância nominal em:
Maioridade
Aos dez anos descobri o primeiro dos objetivos de minha vida: fazer 14 anos. 14 anos são calças compridas, colégio pela manhã, álgebra, certas penugens, centímetros a mais em minha altura, ver Folias de Chicago, deixar de fazer a preliminar nos jogos de futebol de praia; 14 anos, principalmente, era uma idade maior — só poderia ser melhor — que dez anos.
Aos 14 anos descobri que o mundo é das pessoas de 18 anos. Ter 18 anos é rever Folias de Chicago, tomar cuba-libre com um sorriso de quem tem 19 anos, mandar adaptar o smoking do pai para a festa de formatura, tirar carteira de motorista, ficar na rua até o sol nascer, comprar gravatas amarelas, jogar fora uma coleção inteira do Suplemento Juvenil (1941-1945). 18 anos são quase 21.
Aos 21 anos tem-se os documentos todos e uma vontade enorme de se perder. Deixar crescer o bigode, rever Folias de Chicago, falar um pouco depressa (um pouco alto) demais, apaixonar-se por uma mulher casada, rasgar alguns papéis, deixar crescer a barba, começar a escrever o nome com formalidade, raspar o bigode, descobrir bares, orgulhar-se dentro do corpo, raspar a barba, perceber tons intermediários, deixar crescer novamente o bigode: leva-se mais de 20 anos para se ter 21 anos.
Às vezes eu pensava em coisas: achava que estava traçando o futuro. Não estava, era do passado que eu me lembrava, sem saber. Depois dos 21 anos não há mais idades, todo ano é ano, cada idade é legal. A não ser fazer 30 anos. 30 anos é tempo. Sofrer é tão diferente do que eu pensava que fosse.
Mas nesse tempo — não sei direito onde nem quando — houve um tempo de terrível lucidez. Não dava para durar. Sobrevivi por muito tempo a mim mesmo. Sei que era um tempo com hora, minuto e ponteiro (como se fosse uma lança: a ferir e apontar), uma soma de relógios não o reviveria. Era de uma luminosidade palpável; palpável polpa — de fruta madura, pronta: úmida e à mostra, estourando de dentro da casca. Fruta que, olhando-se de fora, dizia-se ter semente ou não. Não dava para plantar ou pôr na boca. Era fruta de se deixar em cima das mesas e outros móveis. Fruta de se levar por aí, de se mostrar. De cera, não. Não cabia num prato, mas enchia a mão. E não alimentava: iluminava. Uma luminosidade que de mim se usava, eu não tinha nada com ela, eu era parte de um tempo — acidente feito gente.
Eu sou quase uma coisa. Como é que é?
Me perguntam. Mais ou menos, vou
respondendo. Para tudo.
LESSA, I. Diário Carioca, 1965. Disponível em
As formas verbais “cabia” e “enchia”, em “Não cabia num prato, mas enchia a mão.”, estão conjugadas no pretérito imperfeito do modo indicativo. Caso estivessem conjugadas no pretérito perfeito do mesmo modo, a reescrita correta da sentença dada seria:
Preencha as lacunas abaixo com “eu” ou “mim”, de acordo com a norma-padrão. A seguir, assinale a sequência correta obtida.
- Ainda reinava um mal-estar entre ___ e ela.
- Para ___, fazer justiça é fundamental.
- Trouxe um presente para ___ relembrar os velhos tempos.
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno- -me simples espectador. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso de um poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim, um casal acaba de sentar-se numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma menininha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo- -escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A menininha olha a garrafa de refrigerante e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve o refrigerante, o pai risca o fósforo e acende as velas. A menininha sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você...”. A menininha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Fernando Sabino. http//contobrasileiro.com.br. Adaptado)
A frase redigida de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa e, ao mesmo tempo, fiel às ideias do texto está na alternativa:
Analise as orações, abaixo:
I – Havia dez pessoas aguardando atendimento.
II – Espero que se lembre que temos um compromisso hoje.
III – Precisam-se de funcionários jovens e ágeis.
Há erro, na escrita, das frases apontadas em:
“Pour Elise”, de Beethoven, é música onipresente em lições de piano, mas para os moradores de Taiwan, o jingle1 é um chamado à ação, o início de um ritual noturno, um sinal para amarrar as sacolas plásticas e descer: é hora da coleta de lixo.
O caminhão de lixo amarelo e o caminhão de reciclagem branco param na rua, os coletores descem e colocam uma série de latas separadas para papel, plástico, vidro, metal, comida crua (para adubo) e comida cozida (para ração de porcos).
Nos minutos seguintes, a rua desanimada se transforma em algo semelhante a uma festa de bairro à medida que moradores, velhos e jovens, convergem de todas as direções para os caminhões. Eles vêm a pé, de bicicleta e de scooter, com o lixo já separado em sacolas plásticas.
A coleta de lixo varia em todo o mundo, mas nenhum lugar faz como Taiwan. Nas cidades ou vilas rurais, faça chuva ou faça sol, você encontrará pessoas com sacolas na beira da estrada esperando os caminhões de lixo. Alguns passam o tempo olhando para seus celulares. Outros atualizam as fofocas e conversam com os vizinhos. Estão com os ouvidos abertos para os primeiros compassos da música.
Há os tipos antissociais que só querem despejar seu lixo e ir embora, e também moradores de apartamentos de luxo que têm funcionários para realizar a tarefa. Ainda assim, as pessoas dizem que poder ver rostos familiares tem sido uma fonte de satisfação.
Recentemente em Taipei2 , Kusmi, de 52 anos, recebeu de uma amiga um recipiente com espaguete e laranjas. Lin Yu-wen, de 78, ajudou sua vizinha e amiga de longa data, Yu Tzu-tsu, de 91, a jogar fora uma pilha de jornais velhos.
Lin e Yu têm idade para se lembrar dos dias em que as ruas de Taipei ficavam cheias de lixo e os aterros da ilha transbordavam. A situação tornou-se tão insuportável que, a partir da década de 1990, o poder público resolveu agir.
Em Taipei, os moradores foram obrigados a comprar sacos de lixo azuis emitidos pelo governo, criando um imposto sobre o lixo a fim de diminuir a quantidade de resíduos; mais de quatro mil pontos de coleta foram instalados; a maioria das lixeiras públicas foi removida; e multas foram aplicadas. Tudo isso faz parte de uma política de gestão de resíduos segundo a qual “o lixo não pode tocar o chão”. As medidas funcionaram. Em 2017, Taiwan teve uma taxa de reciclagem doméstica de mais de 50%, perdendo apenas para a Alemanha, segundo a empresa de consultoria Eunomia.
O jingle tornou-se definitivamente parte integrante da trilha sonora de Taiwan, visto que atrai uma multidão de forma tão confiável que, quando a cidade de Tainan se atreveu a mudar e transmitir aulas de inglês, ninguém apareceu.
(Amy Qin e Amy Chang Chien. https://www.estadao.com.br/internacional. Tradução de Lívia Bueloni Gonçalves. Acesso em: 26.05.2022. Adaptado)
1. jingle: mensagem publicitária musicada de curta duração 2. Taipei: capital de Taiwan
Assinale a alternativa que atende à norma-padrão de concordância verbal e nominal.
Assinale a alternativa cuja frase se encontra correta em relação à concordância verbal.
O aparecimento do animal é simbólico e preocupante. Para os pesquisadores, "indica" efeitos do isolamento populacional. Em relação à concordância verbal, é correto afirmar que o verbo destacado refere-se, especificamente:
O aparecimento do animal é simbólico e preocupante. Para os pesquisadores, "indica" efeitos do isolamento populacional.
Em relação à concordância verbal, é correto afirmar que o verbo destacado refere-se, especificamente:
Em conformidade com a norma-padrão, as lacunas do enunciado devem ser preenchidas, correta e respectivamente, com: