Anunciou-se que São Paulo ia ter bondes elétricos. Os
tímidos veículos puxados a burros, que cortavam a morna da
cidade provinciana, iam desaparecer para sempre. Não mais
veríamos, na descida da Ladeira de Santo Antônio, frente à
nossa casa, o bonde descer sozinho equilibrado pelo breque
do condutor. E o par de burros seguindo depois. Uma febre
de curiosidade tomou as famílias, as casas, os grupos. Como
seriam os novos bondes que andavam magicamente, sem
impulso exterior?
O projeto aprovado, começaram logo os trabalhos da
execução. E anunciaram que numa manhã apareceria o
primeiro bonde elétrico. Indicaram-me a atual Avenida São
João como o local por onde transitaria o veículo espantoso.
Um amigo de casa informava:
— O bonde pode andar até a velocidade de nove pontos.
Mas, aí é uma disparada dos diabos. Ninguém aguenta. É
capaz de saltar dos trilhos! E matar todo o mundo.
A cidade tomou um aspecto de revolução. Todos se locomoviam, procuravam ver. E os mais afoitos queriam ir até
a temeridade de entrar no bonde, andar de bonde elétrico!
Naquele dia de estreia ninguém pagava passagem, era de
graça. A afluência tornou-se, portanto, enorme. A tarde caía.
Todos reclamavam. Por que não vem?
Um murmúrio tomou conta dos ajuntamentos. Lá vinha o
bicho! O veículo amarelo e grande ocupou os trilhos no centro
da via pública. Um homem de farda azul e boné o conduzia,
tendo ao lado um fiscal. Uma alavanca de ferro prendia-o ao
fio esticado, no alto. Uma campainha forte tilintava abrindo as
alas convergentes do povo. Desceu devagar. Gritavam:
— Cuidado! Vem a nove pontos!
Um italiano dialetal exclamava para o filhinho que puxava
pelo braço:
— Lá vem “os bonde”! Toma cuidado!
O carro lerdo aproximou-se, fez a curva. Estava apinhado
de pessoas, sentadas, de pé.
Uma mulher exclamou:
— Ota gente corajosa! “Andá” nessa geringonça!
Passou. Parou adiante, perto do local onde se abre
hoje a Avenida Anhangabaú. Houve um tumulto. Acidente?
Não andava mais, gente acorria de todos os lados. Muitos
saltavam.
— Rebentaram a trave do lado! Não é nada!
Tiraram a trave quebrada. O veículo encheu-se de novo,
continuou mais devagar ainda, precavido. E ficou pelo ar,
ante o povo boquiaberto que rumava para as casas, a atmosfera dos grandes acontecimentos. Nas ruas, os acendedores
de lampião passavam com suas varas ao ombro acendendo
os acetilenos da iluminação pública.
(Oswald de Andrade. Um homem sem profissão.
São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Adaptado)
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