A história de Iza Souza com a cozinha começou por acaso.
Na verdade, por necessidade. Há 19 anos, ela deixou seu povoado baiano e levou os filhos para morar em Trancoso, no sul
da Bahia, em busca de uma vida melhor. Não encontrou vaga
como professora, sua profissão de origem, naquele paraíso
turístico. A pouca oferta a levou ao trabalho doméstico nas
casas de ricos e famosos que se multiplicam na região durante
o verão.
Mas, no Brasil, trabalho doméstico muitas vezes significa
“fazer tudo relacionado ao cuidado das famílias”. Contratada
inicialmente para ser caseira, Iza precisou lavar, passar e...
cozinhar. Não sabia sequer fritar um ovo. Aprendeu, na prática, a transformar ingredientes e temperos em pratos. Hoje
ela é Iza Souza: professora, antropóloga em formação, escritora e cozinheira que acaba de lançar o livro digital Comida é
Cura: Saberes Ancestrais do Sul da Bahia.
Até ostentar essa coleção de títulos, Iza fazia uma cozinha
autoral e intuitiva. Quem provava sua comida dizia tratar-se
de um verdadeiro “manjar”. Só que esse tal manjar de Iza era
diferente.
Ela — que gostou desse negócio de dormir professora e
acordar cozinheira — buscou outras fontes de aprendizado
além dos cursos de gastronomia que fez por conta própria.
Em vez de se limitar às técnicas francesas e europeias, decidiu ir a campo, conversar com marisqueiros, cozinheiras de
rua e mulheres dos quilombos. Passou também a resgatar a
comida que aprendeu a comer em família — metade vinda de
aldeia indígena e outra metade do quilombo.
“Passei a fazer a cozinha dos meus antepassados, que
descobri chamar de afro-indígena. Percebi que ela era transmitida integralmente pela oralidade e não possuía registros
escritos, como acontece com as cozinhas europeias. Entendi
que precisava cozinhar, sim, mas também escrever para que
meu povo não desaparecesse”, define.
(Fernanda Aranda, O Estado de S. Paulo, 21.06.2026. Adaptado)
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