Qual o impacto da presença de mulheres na ciência e da
discussão sobre gênero nos resultados de pesquisas científicas? Um artigo publicado mostra, por exemplo, que considerar a variável sexo na compreensão de dinâmicas genéticas
e hormonais pode trazer inovação à imunoterapia contra o
câncer. Em 2017, estudo divulgado revelou que a descoberta
de diferenças sexuais em padrões moleculares permite aprimorar o desenvolvimento de remédios para alívio da dor e
depressão. Em movimento que teve início no final da década
de 1980 e ganhou força a partir dos anos 2000, cientistas têm
incorporado a análise de sexo e gênero em seus projetos. A
medida tem dado novos rumos a estudos em múltiplas áreas
do conhecimento, como biomedicina, demografia, inteligência artificial e filosofia.
Em artigo publicado em 2019, autores discutem estudos
de caso em áreas como mudanças climáticas, engenharia e
robótica. Um desses estudos diz respeito à utilização do tradutor automático do Google. Quando traduz assuntos relativos
a ciência, tecnologia, engenharia e matemática, a ferramenta
costuma utilizar padrões masculinos. Algo parecido, mas com
sinal inverso, ocorre com algoritmos que produzem, de forma
automática, legendas de imagens. Em fotos de homens na
cozinha, por exemplo, eles costumam ser identificados como
mulheres. A primeira reunião entre especialistas do Google e
pesquisadores de Stanford para discutir a questão das traduções enviesadas ocorreu em 2012. Embora tenha assumido
o compromisso de resolver o problema naquele mesmo ano,
mudanças parciais ocorreram apenas em 2019. “É mais difícil
corrigir algo quando a plataforma básica está definida. Daí a
importância de se considerar o viés de sexo e gênero desde o início de uma pesquisa.” Para Londa Schiebinger, professora de história da ciência na Universidade Stanford, na
Califórnia, Estados Unidos, o equívoco no algoritmo do tradutor do Google pode estar relacionado, entre outros aspectos,
ao fato de que nas faculdades de engenharia e computação
não são ministradas disciplinas que ensinem os estudantes a
considerar análise de gênero em suas investigações.
(Christina Queiroz. O gênero da ciência. https://revistapesquisa.fapesp.br,
março de 2020. Adaptado)
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