Dados sobre o ensino no País animam e preocupam.
São uma espécie de resumo das contradições de um país
que cresce sem romper sua imensa desigualdade social.
Muitos índices de educação dos jovens melhoraram na
última década, mas mais de 7 milhões de jovens não concluíram o ensino médio e estão fora das escolas, de acordo
com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE). O número de alunos cresce, mas milhões deles
concluem o ciclo básico com conhecimentos inferiores
aos considerados necessários para agir com autonomia,
espírito crítico e iniciativa num mundo em rápidas transformações tecnológicas. Superar essa deficiência exige
professores adequadamente preparados. É desolador, no
entanto, constatar que são escassas as políticas públicas
com esse objetivo e, pior, observar que certas ações do
poder público enfraquecem o papel do professor, o que
pode comprometer o aprendizado e o futuro do aluno.
Programas para o aperfeiçoamento da docência na rede
pública existem. Desde 2007, a Universidade de São Paulo (USP) mantém o programa Encontro USP-Escola, para,
como explica, “promover a formação continuada de docentes
da educação básica e promover a interlocução entre a universidade e a escola”.
Surgido de uma iniciativa do Instituto de Física da USP,
o encontro vinha sendo bastante procurado por professores
da rede pública. Em 2023, foram 1.607 inscritos; em 2024,
1.170; em 2025, 1.219. Em 2026, segundo informações preliminares, foram cerca de 600. O que aconteceu? Desalento dos professores? Não parece uma hipótese descartável,
pelo menos no caso dos professores da rede estadual de
ensino de São Paulo. Está havendo uma rápida substituição de professores efetivos por temporários. Alguns dados
mostram a rapidez e a extensão desse processo. Em 2023,
pela primeira vez, os temporários (101 mil) superaram os
efetivos (90,5 mil), segundo uma pesquisa do Todos pela
Educação, uma instituição privada que luta pela melhoria do
ensino público.
Do ponto de vista pedagógico, no entanto, talvez a
mudança que mais afetou o trabalho dos professores dessa rede tenha sido a evolução do projeto de adotar materiais didáticos digitais (basicamente slides) obrigatórios em
sala de aula. Instituições que congregam professores da
rede pública têm afirmado que esse modelo, chamado de
plataformização do ensino, por meio do uso intensivo de
material digital nas salas de aula, vem acompanhado de
uma espécie de privatização do ensino público (em razão
do aumento dos gastos com a compra de equipamentos e
material didático fornecidos por empresas privadas).
No entanto, seu efeito mais preocupante, de acordo com
essas instituições, é a drástica redução do papel do professor na sala de aula. O Grupo Escola Pública e Democracia
(Gepud) acrescenta que o uso intenso das plataformas tem
causado desinteresse e cansaço nos estudantes e contraria
a tendência mundial de reduzir a utilização das tecnologias
digitais e o tempo de uso de telas por crianças e adolescentes. Mais ainda, “as plataformas retiram dos professores a
essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas”.
Na essência, então, professor bem preparado para quê?
Apenas para orientar os alunos sobre como manejar uma
máquina?
(Jorge J. Okubaro. Disponível em: https://www.estadao.com.br/opiniao,
30.06.2026. Adaptado)
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