História de um olhar
O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva.
Inclui.
Esta é a história do olhar de uma professora chamada
Eliane Vanti e de um andarilho chamado Israel Pires.
Um olhar que nasceu na Vila Kephas. Nesta vila, cheia de
presságios e de misérias, vagava um rapaz de 29 anos com
o nome de Israel. Imundo, meio abilolado, malcheiroso, Israel
vivia atirado num canto ou outro da vila. Desregulado das
ideias, segundo o senso comum. Escorraçado como um cão,
torturado pelos garotos maus. Israel era a escória da escória.
Um dia Israel se aproximou de um menino. De nove
anos, chamado Lucas. Olhos de amêndoa, rosto de esconderijo. Bom de bola, bom de rua. De tanto gostar do menino
que lhe sorriu, Israel o seguiu até a escola. Israel chegou até
lá por fome. De comida, de afago, de lápis de cor. Fome de
um olhar.
Eliane, a professora, descobriu Israel. Desajeitado, envergonhado. Um vulto, um espectro na porta da escola. Com um
sorriso inocente e uns olhos de vira-lata pidão. Eliane viu Israel.
E Israel se viu refletido no olhar de Eliane. E o que se passou
naquele olhar foi um milagre de gente. Israel descobriu nos
olhos da professora que era um homem, não um escombro.
Israel perseguiu o olho de espelho da professora. E, quando perceberam, Israel estava na janela da sala de aula da
segunda série C. Uma cena e tanto. Israel na janela, espiando
para dentro. Cantando no lado de fora, desenhando com os
olhos. Quando o chamavam, fugia.
E, num dia de agosto, Israel completou a subversão. Cruzou a porta e pintou bonecos de papel. Israel estava todo
dentro do olhar da professora. Israel, o pária, tinha se transformado em Israel, o amigo. Ganhou roupas, ganhou pasta,
ganhou lápis de cor. Trazia até umas pupilas novas, enormes,
iluminadas. E um sorriso também recém-inventado.
Israel, capturado pelo olhar da professora, nunca mais
a abandonou. Vive hoje nesse olhar em formato de sala de
aula, cercado por 31 pares de olhos de infância que lhe contam histórias, puxam a mão e lhe ensinam palavras novas. E
as crianças, que têm na escola um intervalo entre a violência
e a fome, descobriram-se livres de todos os destinos traçados nos olhos de Israel.
(Eliane Brum. A vida que ninguém vê. Porto Alegre:
Arquipélago Editorial, 2006. Excerto adaptado)
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